03 abril 2018

ESCREVER FAZ BEM OU FAZ MAL?



Quando a maturidade chega, vem uma vontade de escrever memórias, como se assim a gente ficasse por aqui para sempre. Além disso, tentar organizar um passado faz com que a gente passe a vida a limpo. Dizem que escrever memórias faz bem, mantém a cabeça ocupada com o projeto, exercita o relembrar. Acho que às vezes a gente fica bem, às vezes não. Para revirar as gavetas do passado é preciso curiosidade, uma certa coragem e muito desprendimento.

Já faz um ano que publiquei meu livro "As Tias,  lendas de uma família..." pela Editora Patuá. Isso me fez avaliar o resultado, ou seja a resposta dos leitores. Não são tantos quantos eu gostaria, mas são bons, atentos, generosos nos comentários e nas críticas. Posso dizer que valeu.

Refleti também sobre a minha escrita, o meu processo de escrever as memórias e como eu me sinto ao escrever meus textos, sejam eles de um projeto em andamento ou simples crônicas que posto aqui e ali.

Escrever "As Tias" foi um longo processo mas resultou em um estado de accomplishment. Como traduzir? Plenitude, realização, talvez dever cumprido ou sonho que se realizou às custas de perseverança e determinação. Tive uma fase inicial, quando descobri alguns segredos de família e, com isso, a vontade de querer saber mais sobre as pessoas que não estavam mais aqui. Principalmente minha avó, que pouco conheci, e despertou em mim imensa curiosidade. Na fase da pesquisa, o cuidado de tocar nos assuntos proibidos e tentar entender o como cada omissão afetou seus descendentes. A seguir, foi a fase do quebra-cabeças, juntando peças, ou fragmentos de relatos. As pessoas foram morrendo, nesse meio tempo, e umas histórias soltas foram se conectando com outras.

Ouvi muitas opiniões de leitores beta, professores e escritores. Travei. Deixei o livro de lado por algum tempo e marquei uma data para fazer a revisão final. Nesse meio tempo, pensei que o livro era meu e que assumiria toda responsabilidade pelo conteúdo e qualidade do texto. As opiniões foram todas válidas, mas escrevi como eu mesma achava que deveria ser. Nessa revisão, limpei tudo o que indicasse julgamento ou preconceito de minha parte e assim pude perceber quanto amor existiu nessa família de imigrantes e seus descendentes.

Escrever sobre a história da família de minha mãe me fez bem. Foi uma sublimação dos ressentimentos que juntei durante minha própria vida, foi um passar a limpo muito benéfico. Senti que todas aquelas pessoas estavam ali comigo e que elas também estavam se sentindo bem. Tive uma longa depressão “pós-parto” e depois de quase um ano decidi que o que eu quero fazer da vida de agora em diante é escrever. E tudo que diz respeito ao hábito de escreve: ler, estudar e estar com pessoas que tenham o mesmo interesse que eu.

Acredito que escrever “literatura” me faz bem. Escrevo todos os dias. Escrevo o que eu quero que os outros leiam no computador. Depois transformo em livros, contos, cônicas, mini contos e publico algumas coisas. Porém, tenho cadernos e mais cadernos de escrita a mão, com canetas coloridas ( ou não, depende da fase) onde escrevo o que não quero que leiam. Geralmente são cadernos bonitos, brochuras com capa de tecido ou belas estampas onde escrevo para mim, para minha reflexão e autoconhecimento. Às vezes o processo é um pouco doloroso, mas não tenho censura, ponho para fora o que me aflige. Escrever assim também me faz bem.

02 abril 2018

QUANDO ELA COMEÇA?

Sabemos muito bem como a velhice termina. Mas,como e quando ela começa?

Dizer que as três fases da vida são infância, idade adulta e velhice é simplificar muito nossa existência por aqui. Os ritos de passagem de culturas diferentes indicavam ( e ainda indicam)  quando a criança deixa de ser criança e passa a ser adulta. Uma passagem abrupta e decisiva. Simplificando, as meninas estão prontas para procriar e os meninos para serem  machos corajosos e cuidarem das fêmeas e suas crias.

Já, atualmente a subdivisão começa na infância:  primeira infância, segunda infância e pré-adolescência. E a adolescência, que há muito pouco tempo nem existia hoje é super valorizada, pode ter uma indicação de quando começa, mas não se sabe quando termina.  Em alguns casos, vai até depois dos trinta anos...

A indicação que a idade adulta  começa fica entre 18 e 21 anos quando o sujeito já pode dirigir e beber em lugares públicos. Depois são os anos de investir na carreira, juntar dinheiro, formar família, ou não. Mas, vamos pensar que hoje vivemos mais, fazemos coisas que as pessoas da mesma idade que temos não faziam antes - esportes, viagens, reinvenção do trabalho, novos relacionamentos e por aí vai. Ah! Dizem que os 60+ são os novos 40+! Os 50+ são os novos 30 e por ai vai. Com isso, o que observo é que a velhice pode também ser classificada. Digamos que entre 40 e 60 somos aspirantes a novos velhos. A partir dos 60 as mudanças se tornam mais evidentes e podemos dizer que estamos ficando velhos. Depois dos 75,  sim,  já somos velhos, veteranos em velhice.

Aspirantes a velhos
Novos velhos
Veteranos em velhice...


Acho que é mais ou menos assim.

O quede fato importa é entrar em contato com a gente mesmo, buscar o autoconhecimento  em qualquer fase da vida, principalmente depois de um tempo quando começamos a sentir mais as transformações do corpo, e tirar partido.

Talvez a velhice seja uma segunda adolescência.Temos uma ideia de quando começa, mas não sabemos quando vai terminar...

15 março 2018

APOSENTANDOS


Encontro com  Carlos Francisco, 66, não nos víamos há muitos anos e o assunto era mais ou menos o esperado. Como vai a família, e fulano e sicrana, e os filhos,  o que tem feito. A conversa sai do lugar comum quando ele me conta que está  se aposentando. Nada de depressão e nem entrar naquela de ficar consertando a campainha, trocando lâmpada, indo ao mercado ou "pesquisando" na internet.

"Estou me aposentando numa boa porque já venho pensando nisso há anos. Me programei, voltei a ter moto  e me distraio com isso já faz tempo. Fui incrementando a máquina, dando um trato e depois troquei por uma melhor. Hoje  está do jeito que eu queria.  Sabe o que eu faço?  Quando as coisas começam a embaçar,  eu pego a moto e saio por aí. Dou uma volta, às vezes pego a estrada e volto pra casa novinho, cabeça fria. E tenho os amigos também, a turma que se encontra na padaria do Venâncio todo sábado de manhã. É sagrado. A gente vai pra lá, bate papo, fala de moto, às vezes sai aquele enxame de motoqueiros só pelo prazer de pegar a estrada. Olha, vou contar pra você. Não tem coisa melhor.

Durante a semana eu gosto de fazer caminhadas de pelo menos  cinco quilômetros, até dez. É pra manter a forma. Ás vezes vou de manhã e de tarde. A cidade é plana e eu não tenho preguiça. Também não tenho barriga, olha aqui ó. "

E bate a mão no estômago com orgulho. Nisso, chegam as filhas e abraçam o pai .

" Meu pai não está gato, tia? Olha só, tem até tatuagem."

Pergunto se ele usa jaqueta de couro e bandana, ele dá risada. Cuidar da moto e ir adquirindo os acessórios fez parte do projeto de aposentadoria. Hoje, em vez de ficar cutucando o passado ele tem coragem de fazer o que gosta,  olha para frente, para a estrada, caminhando ou dirigindo a bike.

Carlos Francisco tem um bom humor que faz com que a gente queira ficar por perto. Dorme bem, se exercita, se alimenta bem, mas não dispensa um torresminho, carne de porco, pimenta  a cerveja. Dedica tempo de qualidade à família, o filho mais novo e o sobrinho também curtem moto, saem os três juntos. Aos domingos, sempre acontece um almoço no casarão antigo que era da avó, e agora a mãe e as tias tanto cuidam da casa como preparam os almoços. A família toda comparece, primos, sobrinhos, tios, tias e agregados.

No facebook Carlos mantém discreto perfil, porém não deixa de marcar sua presença entre os amigos e assim nunca perdemos o contato nesses quase 40 anos. As fotos  das viagens que faz com a esposa, ou das aventuras on the road, são geralmente da paisagem. Quando ele aparece, está lá fundo, mal da para ver. Entendo com isso a importância que ele dá para a natureza e os belos cenários que visita

Meu amigo me fez pensar que ele é um bom exemplo de vetera novis, ou seja, de um novo velho que faz do limão que é envelhecer uma boa limonada (ou um copo de cerveja gelada). Sem muita firula, planejou sua aposentadoria e, no momento em que essa fase da vida está prestes a acontecer, já tem seu plano B. Se vai continuar para sempre? Não importa.

Não importam também que os comentários preconceituosos pipoquem  aqui e ali. Coroa motoqueiro, olha só de bandana e tatuagem, esses velhos de moto ...  E outras alfinetadas se perdem no pó da estrada, eu diria que é pura inveja. Quem não se lembra de Peter Fonda e Jack Nicholson em Easy Rider? Quem não tem vontade de pegar uma moto e sair pela estrada com o vento batendo no rosto?

A liberdade que a gente sempre anda buscando está bem na nossa frente, basta mudar o modo de olhar.

Get your motor runnin'
Head out on the highway
Lookin' for adventure
And whatever comes our way...

13 março 2018

UMA PALAVRINHA


UMA PALAVRINHA

Medicina. Seis anos de estudo em período integral. Depois, mais quatro anos de residência e especialização - poucas vagas para completar a prática – opção, quase obrigação, de mestrado e doutorado. Dez anos de estudos, mais disposição para estudar a vida inteira. A Medicina é praticamente uma missão, o médico jura consagrar sua vida a serviço da humanidade e ter a saúde dos pacientes como primeira preocupação. Precisa saber lidar com os pacientes e suas fragilidades, precisa estar preparado para conviver com a dor e com a morte. Culturalmente, temos dificuldade até de tocar no assunto. Se alguém diz quando eu morrer, logo ouve um credo vira essa boca pra lá...
Está muito na moda dizer que os 50 são os novos 30, os 40 são os novos 60, mas será que os que estão abaixo desses números sabem disso?

Maria Cristina, bióloga, divorciada, 61 anos, feminista e defensora da ecologia vai a um médico ginecologista pela primeira vez. Depois das perguntas de praxe o jovem doutor pergunta:

- A senhora ainda tem vida sexual?

Ainda? Por que ainda? Bruna Lombardi, fotografada pelo marido em poses sensuais, tem 65. Ney Matogrosso, aos 76, arrasa nos palcos. Ah, mas eles são artistas! São. E daí?

Por acaso,  na na ocasião da consulta, Maria Cristina estava sozinha, mas se sentiu constrangida ao dizer isso ao médico. Pensou em várias repostas não muito educadas, mas achou melhor falar a verdade A palavrinha ‘ainda’ ficou zanzando na sua cabeça por um bom tempo. Se ela fosse homem certamente o médico não faria essa pergunta.

Há muitos anos assisti a uma palestra do nagual, ou xamã, conhecido por Dom Miguel Ruiz. Nascido no México, esse médico neurologista resolveu estudar as tradições religiosas de seus ancestrais, divulgá-las por meio de palestras e livros, além de adotá-las como filosofia de vida. O primeiro livro “Os Quatro Compromissos da Filosofia Tolteca” explica que esses quatro acordos abrangem toda a sabedoria do mundo. São eles: 
1- seja impecável com sua palavra; 
2- não leve nada para o lado pessoal; 
3- não tire conclusões; 
4 - dê sempre o melhor de si. 

Na ocasião fiquei intrigada e me aprofundei no assunto. Porém, com o passar dos anos, o compromisso que sempre me vem à mente é número 4- não tire conclusões. Não estou aqui para pregar nem convencer ninguém, mas as palavras do nagual me marcaram. Não gosto quando tiram conclusões a meu respeito sem me conhecer e, com muita disciplina, procuro não fazer o mesmo. É uma luta, mas não é impossível. Essa memória me veio assim que eu ouvi o relato de Maria Cristina.

Na nossa cultura a gente sempre “acha”. Acha que o outro ficou chateado, que entendeu, ou não entendeu, que gosta e aprova isso ou aquilo. Acha que podia, que devia, que sabia... Pior, colocamos pensamentos - palavras e ações - nossos na cabeça do outro. Tantos desentendimentos por causa disso.

Os novos velhos - os vetera novis – ainda não são reconhecidos em uma sociedade preconceituosa e “achista”. Para falar a verdade, muitos ainda não se reconhecem, pois representam uma faixa estaria específica, fruto das mudanças rápidas e infinitas que a sociedade vem passando. Achamos que fulano é velho, ou que nós somos velhos, e adotamos todos os clichês. No ônibus/metrô/etc. a imagem que identifica os velhos é a de uma figura humana inclinada, segurando uma bengala. 

Vamos pensar nas pessoas que conhecemos entre 60 e 75 anos. Além da lista de famosos, vamos pensar nos amigos e parentes. Meus amigos de 65 ou 75 anos jogam duas ou três partidas de tênis todo fim de semana. Uma professora vetera novis, de 62 anos, é maratonista. Vários novos velhos, como eu, com mais de 60, estão reinventando sua carreira profissional.

A palavra que escapa, o ato falho, diz muito. Citei um exemplo da falta de empatia de um jovem médico, mas o tal “achismo” está em todos nós. Os profissionais da saúde, porém, têm responsabilidade maior, pois estão lidando com saúde e doença, vida e morte de outro ser humano.

Para finalizar, dentro ainda do contexto de não tirar conclusões precipitadas, mais um exemplo, dessa vez sobre dor. Doutor, estou com uma dor aqui... Não, o senhor não está com dor aí. Como assim? Se estou falando que estou é porque estou. 

Hoje se sabe que a dor é uma doença, que algo não está bem e o cérebro manda esse alerta por inúmeras razões. No envelhecimento o corpo sinaliza o desgaste natural, se o paciente diz que está doendo é porque sente dor, dormência, coceira, desconforto, enfim. Não dar ouvidos é, no mínimo, cruel.
Da mesma maneira, quando o médico pergunta se a paciente ainda tem vida sexual é porque chegou à conclusão de que não tem mais.  Será? A libido desconhece números.

07 março 2018

ACOMPANHANTES E OS NOVOS VELHOS


Não seria ótimo se, nos treinamentos de funcionários da área de saúde, houvesse uma aula, um bate papo, sobre quem são os vetera novis, os novos velhos? Essa geração que se multiplica e chama a atenção da mídia e da publicidade? Essas pessoas que, como eu,  nasceram depois da segunda guerra, sobreviveram a fortes mudanças, transformações  e movimentos e, portanto, têm muito a dar e receber?

Com toda a afetividade do brasileiro, é costume que os filhos tomem à frente a partir do momento em que seus pais atingem certa idade, geralmente depois da aposentadoria.  Para nossa cultura isso significa amor, você cuidou de mim agora eu cuido de você. Quero que todos saibam que sou bom filho e que eu me preocupo com você.
 
Segundo psicanalistas, existe uma fase importante na adolescência que é o processo de reafirmação da identidade pessoal. As relações com os pais têm que mudar para que os jovens possam ascender ideias próprias. É conhecida a fase em que os genitores, que eram heróis, passam a não saber nada; os filhos sabem tudo. É muito comum isso se estender por mais tempo ou se repetir mais tarde, quando os pais envelhecem.  Vamos combinar que, na realidade, pais e filhos têm sua sabedoria de acordo com o tempo em que vivem ou já viveram. Mas, como conseguir um acordo saudável e satisfatório?
Eu diria que é conversando. Conversando sobre a vida e sobre a morte, sem tabus. Não gostamos de falar sobre a morte, mas todos nós vamos morrer. Os adultos, jovens e nem tão jovens, fazem questão de não pensar no assunto, acham que são highlanders, nunca vão morrer. Nós que estamos envelhecendo, ou seja, os que vivemos mais, estamos na linha de frente, temos voz ativa, somos os “desbravadores do futuro”, merecemos respeito.

No último dia do ano de 2017, por volta das 14h00hs, dirijo-me ao pronto socorro do meu convênio médico, que é muito popular e acessível às pessoas com 50 anos ou mais. A sala de espera está cheia, no entanto,  o operacional de atendimento flui de modo eficaz. Enquanto espero meu nome aparecer na tela, em letras bem grandes, diga-se de passagem, observo como é meu costume observar. Apenas três pessoas estão desacompanhadas: uma senhora parecida comigo, um senhor que aparentemente está sempre lá, e eu mesma.


Um homem se aproxima e educadamente me pede para trocar de lugar para que sua esposa possa ficar ao lado da nora. Claro, sem problemas. Levanto-me e espero ver uma esposa com alguma dificuldade física. Não, ao contrário, uma senhora perfeitamente independente e capaz se aproxima e toma o meu lugar. Por que será que o marido precisou falar por ela? Gentileza? Proteção, talvez.

Sou encaminhada para a sala de medicação e me acomodo bem em frente à porta, com plena visão de quem entra ou sai. Mais uma paciente se aproxima; de cadeira de rodas dessa vez, empurrada pela filha determinada. A enfermeira pergunta se a paciente anda. A filha diz que sim, e a partir daí a interação é apenas entre a enfermeira e a filha. Acomodam a paciente na poltrona feito uma boneca de pano. Será que a paciente consegue se comunicar, ou acha mais fácil se deixar levar?

Volto para a sala de espera e vejo um casal com um bebê chorão no colo, acompanhando um senhor. Trocam a fralda do bebê enquanto eu penso que pronto socorro não é o lugar ideal. Com tanta gente tossindo... O médico chama o senhor para a consulta, o filho levanta primeiro e vai entrando. Depois chama o pai. Vem, pai.

Quatro pessoas ocupam a primeira fileira de cadeiras estofadas de plástico: um casal e duas senhoras. O marido puxa conversa comigo e começa a falar da cunhada. As três mulheres são parecidas: duas superprotegem a que, pelo olhar perdido, identifico como a paciente. É que ela tem a cabeça boa, sabe, mas é teimosa, não toma os remédios direito, não quer se tratar, e a gente não sabe o que fazer, explica o gentil cavalheiro. Se a cabeça está boa para que tantos acompanhantes?
Enquanto aguardo o resultado dos exames fico pensando no que eu quero.

Naquele dia, e pela proximidade, vou ao pronto socorro de ônibus, passo pela triagem e descrevo meus sintomas para o médico. Quando questionada se quero tomar uma injeção de cortisona, digo que sim. Detesto cortisona, odeio, mas na crise respiratória é o que funciona. Será que seria melhor ter meus filhos ali, um de cada lado, decidindo tudo por mim? Seria cômodo. Todos gostam de atenção e em qualquer idade, inclusive eu, mas cada coisa em seu lugar. Se as pessoas vão decidir tudo por mim, não vejo sentido em ficar por aqui.

Minha mente divaga.

Será que os filhos acham que, a partir de certo momento, têm que cuidar de nós, que somos carta fora do baralho, e só eles sabem o que é bom para nós? Talvez não, depende. Por que não conversar e saber o que de fato a gente quer? Todos podem colaborar sem oprimir. Gostamos de estar no comando da nossa vida e só vamos jogar a toalha quando não houver mais opção. Enquanto isso, ainda temos um bom tempo pela frente, pelo menos é o que indicam as estatísticas sobre da longevidade.


08 janeiro 2018

O Estigma de L. de Leonor Cione

Aproveito esses dias entre o Natal e o Ano Novo para mergulhar no novo romance de Leonor Cione "O Estigma de L." - Editoria Quelônio - São Paulo - 2017. Um projeto gráfico arrojado de Silvia Nastari, capa ilustrada com colagem a partir de fotos e pinturas dos anos 1950, quando a trama acontece.
É a história de Lili que não recorda o passado. Está em um sanatório e sabe apenas que não gosta do lugar. As pessoas ao seu redor não se comunicam, por isso, prefere ficar no seu canto favorito perto da janela, ao lado de uma mancha de mofo que se parece com um mapa.  As atendentes são grosseiras, o prato de comida já vem feito da cozinha e o uniforme é feio e amassado.

Entre os pouquíssimos pertences, que guarda em uma lata de biscoito enferrujada, há um velho almanaque, remota referência que provoca em Lili flashes de seu passado. Para ela, não faz diferença que aquelas previsões sejam antigas, o que importa é que basta procurar e logo encontra alternativas e conselhos nas palavras que cheiram a mofo. De vez em quando, Lili não toma o comprimido amarelo, pois precisa lembrar-se de alguém que venha buscá-la. Depois de 20 anos, talvez? Assim, as lembranças vão brotando desordenadamente durante as longas horas de sua rotina sem sentido.

Acompanha o livro um almanaque criado integralmente pela autora, porém nos moldes da época, e que complementa de forma bastante original a obra. Contém variedades para todos os meses do ano como Horóscopo, Pensamentos, Fases da Lua, Você Sabia?, etc. e os peculiares "reclames", como por exemplo o do Xampu Adeline Briand - o segredo de cabecinhas lindas,  ou o Elixir Guarani - que levanta até defunto.

Mês a mês, de mãos dadas com L., e dentro de um sanatório árido, você vai se inteirando dos fatos dramáticos na vida da estranha mulher. A escrita vem para você leve, apesar do conteúdo dramático; tudo  na medida certa com a concisão da narrativa enxuta e precisa. Na minha opinião, um bom livro é assim: faz você se sentir abduzido e totalmente  inserido no contexto da ficção. Do primeiro ao último capítulo, ou seja, de janeiro a dezembro, você é Lili, vê o que ela vê, sente o que ela sente  presa na própria amnésia, vai desvendando com ela os fatos que levam à reflexão. Por fim,  o desfecho narrado em primeira pessoa aproxima ainda mais o leitor.

Nesse seu primeiro romance, Leonor Cione nos surpreende com  seu talento de veterana. Sabe contar  uma história bem contada, intrigante, apaixonante e muito bem apresentada. Gostei muito e recomendo. Quer presente melhor que uma boa leitura?


Sandra Schamas
São Paulo janeiro 2018.

13 setembro 2017

Cidade linda! Só que não...

Domingo a Av. Paulista é dos paulistas. 

Bacana a ideia, todo mundo passeando, andando de bicicleta na ciclovia e na rua, aproveitando o dia lindo de sol. Só que não. Não mesmo.
Infelizmente, o conceito de que a cidade é de todos só é bonito no discurso. Sem o mínimo de respeito ao outro não dá. 
Enquanto as pessoas confundirem liberdade de expressão com vandalismo as boas intenções não vão funcionar.
Enquanto o conceito for “eu mereço ser feliz o outro que se dane”
Enquanto as pessoas não respeitarem as mínimas regras de cidadania e espalharem lixo em grande escala entupindo bueiros, quebrarem garrafas, lixeiras  e propriedades públicas, fizerem xixi na rua esse país não pode dar certo. 

Não adianta por a culpa no outro.

Domingo, dia 3 de setembro, na Paulista, próximo ao Masp, feliz da vida na companhia de um amigo querido, eu caminhava na calçada em meio ao pandemônio. Um rapaz, parado, empurrava o skate com um pé, para frente e para trás, no sentido transversal ao fluxo de pessoas. Eu precisei desviar rapidamente para o skate não lascar minha canela.

Nisso, do nada, no meio daquele monte de gente, surge na minha frente uma moça de bicicleta (veja bem, na calçada cheia de gente, não na rua ou ciclovia) e vem com tudo para cima de mim. Literalmente para cima de mim. Tentei me agarrar em algo, acho que foi a bolsa dela, mas acabei caindo no chão. Só vi a bicicleta vindo em cima de mim. Bati a cabeça, a mão, o quadril, enfim, levei um tombão. Fiquei com medo de me levantar e estar toda quebrada, mas consegui. Por sorte. Poderia ter sido bem pior.
Ouvi meu amigo xingando enquanto me ajudava a levantar. Ainda bem que ele teve o bom senso de não gerar mais violência, porque no final das contas ia sobrar para nós, os agredidos. Direitos humanos, direito do cidadão, das causas, dos gêneros, das minorias, etc. etc.

A doida da bicicleta nem caiu. Quando me viu de pé ainda me perguntou se eu me machuquei! Claro que me machuquei! Estou toda doída, sua doida... 
Triste, indignada. 
Cair na rua traz uma sensação de desamparo, de impotência diante da inconsequência do outro.